F.I.M.

Segundo

Era bom trabalhar na fábrica de celulares. Éramos uma força de apoio às máquinas que faziam o trabalho de verdade. Nossa função era cuidar que as belas filhas da eletromecânica não se machucassem fazendo seu balé elétrico. Na sua dança diária peças e peças de plástico e metal se uniam a filetes de ouro e platina compondo telas e circuitos para adornar e informar a emergente e decadente Xin-Xangai.

Eu adorava o cheiro. Plástico e solda. O barulho ritmado era uma canção de ninar.

Os celulares eram fundamentais na Wok. Você conversava, interagia com a Rede, e usava sua carteira. Nosso pagamento era em créditos, moeda corrente foi abolida na crise de 2029. Os aparelhos eram integrados a biometria do usuário. Tem telas flexíveis que dobram e prendem no pulso como um bracelete fino. As pontas tem ímãs de neodímio de alta potência que só abrem com código. Os melhores modelos inclusive monitoram a saúde do usuário e chamam apoio médico. Para os ricos, claro. O efeito colateral dessa tecnologia é que hoje em dia um assalto acaba virando sequestro. Há bens que vem para o mal.

Minha parceira no trabalho era uma montadora modelo RC-14 série 204498BF84h. Eu chamo ela de Roll, pelo jeito como seus braços giram. Ninguém sabe. Um dia meu chefe quase me pegou cheirando ela. Saudades de tempos melhores.

O ocaso anuncia o fim do expediente. Despeço-me de Roll e vou procurar algo para beber. Minha alegria nestes dias sempre está afundada num mar de sakê. Passo a passo caminho pelas vielas do nível 4, nem Roll poderia ser tão mecânica. Chego numa lanchonete sem nome que o dono me conhece pelo nome. “O de sempre?” Vem um rámen de vegetais (estou de dieta) e uma garrafa de sakê dourado. Olho longamente para a tigela esperando a piada de sempre do dono. Um estrangeiro das américas, tomando bebida japonesa numa birosca chinesa. Ha ha, risada obrigatória. Um dia eu chamava todos os asiáticos de chineses e hoje sou chamado de americano vindo do Canadá. Ha ha, irônico.

Já estou bêbado quando soa a sirene. Engraçado como as sirenes são praticamente iguais no mundo inteiro. Não tive muito tempo de pensar se era de propósito quando o dono me chutava para fora e fechava seu restaurante. Lutei avidamente para levar a garrafa comigo. Ele não iria me alijar nem de um dedo de delicioso sakê. Uma chuva de meteoros se aproximada. Não sei por que tanta confusão, as pessoas tinham medo demais. Ainda mais aqui com esse enorme escudo por suas cabeças. Ouvi dizer que os alemães são mais corajosos, confiam completamente no Missile Command, ou MC, carinhosamente. Nossa tecnologia antiaérea não só detecta, como desvia e destrói os meteoros maiores. E, aqui, se tudo mais falhar, ainda tem um enorme escudo! Frouxos…

Deve ser por causa desses frouxos que estou nesta merda de vida. Falhar enquanto você trabalha para o MC é falta grave. A EDF não perdoa, Iason Galatas não perdoa. Ainda mais quando você salva algum lugar que ele queria destruído.

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albertojunqueira albertojunqueira

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