F.I.M.

Primeiro

Acordei com o sol aquecendo minha face. O calor era palpável. Apertei o travesseiro contra minhas orelhas para suavizar o maldito canto dos galos. Os pássaros acordavam suas crias com uma bela refeição de minhocas. Abri os olhos um pouco e após terminar de ser cegado pela luz ofuscante vi o céu azul e as nuvens que passavam lentamente a reboque dos ventos.

“關閉那東西!”, era minha colega de quarto Xiao Mei mandando eu desligar a janela. Ela era uma chinesinha alta de 1,60m² com cabelos curtos e pretos e iridescentes como poças de óleo. Seria bonita se não tivesse a voz e a personalidade de uma cacatua. Difícil dividir uma unidade habitacional de 30m² com mais quatro pessoas…

Desliguei a tela e fui me arrumar para o trabalho. O cheiro de gente junta é bem enjoativo, ainda bem que dá para se acostumar. O sistema de oxigenação / exaustão é suficiente para não morrermos sufocados na caixa sem janelas que morávamos, mas não o bastante para eliminar os cheiros. Tomei banho, fiz a barba, escovei os dentes e agradeci por meus colegas de quarto não serem tão afeitos a higiene como eu. O sanitário era meu templo, meus poucos minutos de privacidade possíveis. Mei entrou, abaixou a calcinha e começou a urinar sem cerimônia, era minha deixa para ir trabalhar.

Saí pela porta da frente e deixei a esteira me levar. Usava uma camisa pólo azul desbotada e um crachá eletrônico que alternava entre meu nome e número identificador. Arthur D., montador. Os nomes de família estavam desaparecendo aqui na China. Sua família era o estado. Parte das medidas para facilitar o convívio já que éramos dois bilhões apinhados nessa cidade. Quando os fragmentos da Lua começaram a cair e os campos ficaram inabitáveis pela poeira e impactos, os dirigentes do partido não perderam tempo em acabar com a propriedade privada. Olhei para cima vendo as dezenas de níveis intercalados e entrecruzados por passarelas e vias, um emaranhado de veias que bombeiam pessoas pela cidade. Vejo apenas pequenos trechos da abóbada que nos guarda, emoldurada pelas negras hastes. Chineses e sua megalomaníaca engenharia. Nosso teto era até visto do espaço, diziam; evitava as tempestades de poeira e tinha um sistema de amortecimento que conseguia aparar os meteoritos distribuindo o peso e dissipando a energia. Seu melhor aspecto, entretanto, era prover Xin-Xangai de seu carinhoso apelido: a Grande Wok.

Estava chegando no trabalho e isso era bom. Chega de devanear e lembrar de ter conhecimentos que não deveria ter. Hora de ocupar a mente e esquecer do passado. Esquecer do meu primeiro nome e da vida que tive antes de morrer.

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albertojunqueira albertojunqueira

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